Opiário

"Escrevo estas linhas. Parece impossivel
Que mesmo ao ter talento eu mal o sinta!
O fato é que esta vida é uma quinta
Onde se aborrece uma alma sensível."
2001 - Uma Odisseia no Espaço.

2001 - Uma Odisseia no Espaço.

Bluebird

there’s a bluebird in my heart that

wants to get out
but I’m too tough for him,
I say, stay in there, I’m not going
to let anybody see
you.
there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I pour whiskey on him and inhale
cigarette smoke
and the whores and the bartenders
and the grocery clerks
never know that
he’s
in there. 
Charles Bukowski

Walk Of Fame - Intervention

A “Calçada da Fama” foi construída com nomes de crianças que “estrelaram” famosos desaparecimentos. Não mais a futilidade hollywoodiana que parece invadir até os sonhos infantis, a calçada foi ressinificada e se torna lápide.

         Nas estrelas douradas, estão inscritas as datas de nascimento, que se opõem ao dia do desaparecimento, como uma saudação fúnebre a todos os sonhos que nunca chegaram a realizar-se.

         Jazem também os sonhos daqueles que as amaram e terão que lidar com essa realidade. Uma perda que o mundo não sentirá, ou sequer notará, pois se encontra embriagado na inércia capitalista.

Ludibriados pelo consumismo, desejamos aquilo que não precisamos, e que muitas vezes não queremos. Mantemos falsas aspirações, visamos alcançar o poder, a fama, o sucesso e constantemente nos perdemos em sonhos fúteis que nos tornam cada vez mais vazios. E mesmo os conquistando não estamos nunca satisfeitos, sempre sujeitos a alimentar outras banalidades.

É sobre essa sociedade fria, corrompida e autodestrutiva, que é preciso refletir e aonde se esconde a humanidade dos seres humanos, há tempos escusa.

 

A poesia de Leminski

“Rir é o melhor remédio, achar graça, a única saída” declarou certa vez Paulo Leminski. E vivendo num país sob regime de ditadura, muitas vezes era o que se podia fazer. E inspirado na piada de mal gosto que foi o slogan : “Brasil: ame-o ou deixe-o”, compôs o haicai “ameixas ame-as ou deixe-as”, que apesar da sutileza crítica repercutiu bastante na época.

Ele pertencia ao grupo dos artistas que aspiravam, em tempos de repressão, alcançar a liberdade por meio de sua poesia.

Zen, mas militante, Leminski revoluciona até mesmo quando se trata das estruturas poéticas. Isso porque a concisão de sua linguagem opõe-se à prolixidade clássica da poesia brasileira.

"Ameixas

ame-as

ou deixe-as.”

- Paulo Leminski

Sob o Céu de Saigon

Ele era um desses rapazes que, aos sábados, com a barba por fazer, sobem ou descem a rua Augusta. Aos sábados quase sempre à tarde, pois pelos óculos muito escuros e o rosto um tanto amassado por baixo da barba crescida, quem olhasse para um deles mais detidamente, mas poucos o fazem, perceberia que dormiu mal ou demais, bebeu na noite anterior, acabou de chorar ou qualquer coisa assim. Costumam usar jeans desbotados, esses rapazes, tênis gastos, camisetas e, quando mais frio, alguma jaqueta ou suéter geralmente puídos nos cotovelos. Quase sempre levam as mãos nos bolsos, o que torna impossível a qualquer um que passe ver melhor suas unhas roídas, seus dedos indicador e médio da mão direita, ou da esquerda, se forem canhotos, amarelados pelo excesso de fumo. Eles olham para baixo, não como se tivessem medo de tropeçar nos solavancos freqüentes das calçadas da Augusta, pois raramente usam sapatos, e as solas de borracha dos tênis amoldam-se com certa suavidade às irregularidades do cimento; olham para baixo, e isso seria visível se se pudesse localizar o brilho nos seus olhos de pupilas um tanto dilatadas por trás das lentes escuríssimas dos óculos, como se procurassem tesouros perdidos, bilhetes secretos, alguma jóia ou objeto que, mais que valor, guardasse também uma história imaginária ou real, que importa? Mas às vezes olham também para cima, e quando o céu está claro, o que é raro na cidade, pode-se imaginar que suas peles brancas procuram desesperadas e quase automaticamente pela luz do sol. E quando o céu está escuro, o que é bem mais comum, sobretudo nesses sábados em que rapazes assim costumam subir ou descer a rua Augusta, pode-se imaginar que procurem balões juninos, objetos voadores não-identificados, pára-quedistas, helicópteros camuflados, zepelins, ou qualquer outra dessas coisas pouco prováveis de serem encontradas sobrevoando ruas como a Augusta num sábado à tarde.

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Estes sábados sempre tão chatos…

Caio Fernando de Abreu, um brilhante dramaturgo de sua época que conviveu com os tempos difíceis da falta de liberdade e opressão que consistia a Ditadura. Possuidor de extrema criticidade, ele mostra uma visão angustiante da realidade, que ocorre tão rápida e fatídica quanto o tempo.

Sua escrita erma exibe um comportamento não linear, assemelhando-se veemente ao pensar e ao fotografar. Ela dialoga com o corriqueiro, com a vida diária e o cotidiano propriamente dito das pessoas que vão acontecendo em seu conto. Ele descreve não só um menino ou uma menina, mas sim todos aqueles e ao mesmo tempo nenhum que passam pela Augusta.

Não só seu conteúdo, mas também sua linguagem tem importância social e a produção do autor incorpora à narrativa ou à poesia conflitos da sociedade.

O título faz referência à queda da cidade sul-vietnamita Saigon que deu fim à Guerra do Vietnã. “O céu de chumbo, onde não seria surpresa se no próximo segundo explodisse um cogumelo atômico, caísse uma chuva radioativa ou desabasse uma rajada de napalm” […]

Ele fala de dois jovens comuns, que caminham pela Rua Augusta, famosa rua cosmopolita de São Paulo, avenida de encontro das mais diversas gentes. Perfeita para o encontro casual e súbito.

 Uma despedida que não houve, e a sensação que se poderia olhar pra trás, ao mesmo tempo em que parece não haver o que olhar. Ele era lento e ela distraída, e como não perguntaram, não sugeriram nada e cada um seguiu como nada tivesse acontecido. Como diz Caio, eventualmente talvez, nunca tenham estado lá.

“Mas rapazes e moças assim não costumam deixar rastros, e ambos já tinham sumido em suas esquinas de ladeiras súbitas e calçadas maltratadas.”

 


Patrick Devreux Together
2007. Lithograph

Patrick Devreux Together

2007. Lithograph

(via ttoska)

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